Escritos a serem perdidos


                  Passava rápido pelos corredores do teatro a procura de X para contar-lhe tudo.
 Ia contar-lhe tudo. De hoje não passava.
               
                  Sentia um vazio no espaço aonde deveria estar o estômago. Descia as escadas pensando nisso, caminhava o procurando pensando nisso. De fato, não pensava em outra coisa havia dias. Quando ia dormir, adormecia pensando nisso. Quando acordava ainda estava pensando, e por vezes até sonhara com isso.  A intensidade dos pensamentos era tanta, que sufocava e precisava desabafar. Contar a alguém. E ninguém melhor que X.
                Já havia dito à X que tinha algo para lhe contar. X o olhara nos olhos, apreensivo.


 Ah, os olhos de X. 


               Mas havia lhe dito: -Aqui não, agora não é hora, nada é simples, é tudo mais complicado do que parece. É tudo mais delicado do que eu gostaria que fosse.
E o suspense estava feito. A expectativa de X era tanta que não conseguia sentar em um lugar nenhum por mais de alguns minutos, ficava matutando. O que seria que ele teria para lhe contar? Ele havia lhe contado que tinha algo para falar, mas sumira pelo gigante teatro, e o pedira para esperar ali, pois depois lhe falaria.
            X não segurou. Contou à B, que espalhou à C, que D ouviu falar e de repente o alfabeto inteiro já estava sabendo de que algo estava para ser revelado. E seria ali, aquela noite. E dentro de algumas horas estariam todos sabendo.
            Isso borbulhou dentro daquele teatro cheio de letras, e alguns dizem que até estava se apostando qual seria a tal bomba que explodiria o teatro. Alguns se arriscavam dando palpites. Outros diziam que sabiam, e se vangloriavam, mas nada saía de suas bocas. Quando ele apareceu, descendo as escadas, apreensivo, olhando para os olhos de X.


Ah, os olhos de X.


           Não foram só os olhos de X que o acompanhavam, e sim da maioria das pessoas que ali estavam.
Acompanhavam ele chegar na frente de X, lhe falar algumas palavras. Acompanhavam a maneira que ele olhava X, como ele encostava sua mão no cotovelo de X. A maneira com que sorria para X. Acompanhavam o clima entre os dois mudar, e finalmente, acompanhavam ele tomando alguma atitude. Ele encostou os lábios no de X, segurou forte em sua nuca. E ali naquele salão, todos olhavam boquiabertos o beijo mais improvável e inacreditável da noite.
 E te conto, ninguém ganhou aposta nenhuma.
--------
------------------------------------------------------------------------------------------





Naquele corredor branco se ouviam os intactos passos brancos.
Naquela gaveta cinza se ouvia audíveis gritos estridentes vindos de sei-lá-onde.
Naquele saco preto apodrecia a carne.
E ninguém sabia...

Vinda de sua minúscula casa, por sua estreita rua, pelo mesmo ônibus, e assim motorista, passando pela mesma calçada com a mesma goma da semana passada, amassada pelos sapatos de outras mesmas milhares de pessoas, ela atravessava as linhas brancas, repintadas pelos mesmos colaboradores, exceto seu João, que morreu dois dias atrás, e chegava naquele corredor branco, e ele abria a gaveta cinza e mostrava o conteúdo do saco preto.
                                                                                                                                                             E ela sabia.
Constante é a dor não achas?
Aguda, grande, desesperadora, mas constante.
As paredes do seu quarto tinham várias cores, e mudavam constantemente. Assim como o seu cabelo. E assim ia se camuflando. E era o melhor que conseguia, acredite.
Ele era colecionador. Colecionava o que achava importante para sua pessoa. Mas às vezes perdia um item. Às vezes se importava, e chorava.
Às vezes, não.
Seu filme favorito é aquele. Aquele dos quatro amigos que saem em busca de um menino morto. E tinha frases ecoando pelo seu quarto e reverberando próximo. Seus livros eram incontáveis e não é importante citar títulos. Agora não, ao menos. Provavelmente você já os tenha lido.
Ser colecionador era o que ele era.
Colecionador de memórias.
Não se podia ter caixão. Se não pudesse tê-lo aberto, preferia não ter. Ninguém sabia. Ninguém sentia
?
Estava lá, sentada, sozinha, cuidando das memórias que nem sabia que existiam.
Essas sim estavam vivas, andando pela casa, procurando por seu dono, desesperadas.
Que triste, ela dizia.
O colecionador levava uma vida
Estudava, trabalhava, pensava.                UAU!
Ele sorria para todos, sorria. E alguns sorriam de volta.
Como já disse. Levava uma vida
Ele adora domingos de sol. Domingos de sol eram perfeitos. Os raios batiam diretamente em seus grossos fios de cabelo, fazendo com que ficassem vermelhos, azuis, laranja, verdes, brancos. Sem brancos no céu. Domingos com sol são feitos para visitar velhos amigos. Ele podia ouvir o alto ronronar do visitado.
-vou voltar aqui todos os domingos com sol e céu sem brancos. Disse o Colecionador.  
– Prometo.
E os olhos verdes só o fitaram. E assentiram, e o ronronar demonstrou a felicidade da promessa.
Domingos de sol sem brancos no céu é um bom dia para visitar velhos amigos.

O primeiro domingo chegou, mas chegou com chuva. E ela ainda estava sozinha, cuidando.  A única diferença de antes era a de que as memórias agora também jaziam espalhadas pelo chão da casa. Elas morreram de desespero. Não encontraram seu dono, ou seja, seu caixão, sua cama, o seu quarto pintado.
A chuva continua, cinza.
Ela continuava ali, e ninguém tinha vindo ainda ver o colecionador. E já fazia sete dias.

Teve um domingo de sol para o colecionador que o marcou. Embora tivessem brancos no céu, mas o colecionador não os viu. Teve uma visita de uma aparição.


[em construção]

Nenhum comentário:

Postar um comentário